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Prometeu Pós-Moderno

     A fresta de luz, suficiente apenas para a passagem da Doutora Margot Stein, trouxe todos os meus sentidos para um estado de alerta. O tempo que levou para ela trancar a porta bastou para que eu estivesse de pé e com as costas contra a parede. Ela andou até próximo de mim e sorriu com o escárnio de gerações.
    - Como foi a noite?
    - Longa - respondi, ainda comprimindo meu corpo para me manter distante.
    - Sente-se, hoje vamos apenas conversar.
    Obedeci, fazendo as pernas dobrarem, e escorregando as costas pela parede. A doutora se sentou à mesa, e o clique que ouvi indicou que ela estava gravando nossa conversa. 
    - Sete de março, são nove e dez da manhã... Lá fora o sol está brilhando e os pássaros cantando, mas você não teria como saber disso, não é mesmo, espécime zero-zero-três?
    - Não, não teria - respondi.
    - A luz ainda te incomoda, zero-zero-três?
    - Sim.
    - Hum... Zero-zero-três, ha quanto tempo você está aqui no laboratório?
    - Eu não me lembro.
    - Conte-me então das coisas que você se lembra.
    Corri com meu olhar pela escuridão da sala em busca de memórias, mas só encontrei o breu. Senti o olhar da doutora pesado sobre mim, e então ela indagou:
    - Nada ainda? 
    - Não tenho certeza. Às vezes tenho lapsos, uns fragmentos. Eu. Eu...
    - Continue, zero-zero-três.
    - Eu me lembro da sua voz.
    - E o que eu dizia?
    - Você repetia "Está vivo, está vi-"
    - Para quem eu falava, zero-zero-três?
    - Não sei ao certo. Com um homem de branco.
    - Um médico? Outro doutor?
   - Não, menos que isso. Alguém que... Um homem que dirigia. Isso, algo relacionado a um veículo...
    - Sim, zero-zero-três. Um motorista. O que ele dirigia?
   - Uma ambulância - a memória me invadiu como o sol à meia-noite, fervendo os meus sentidos como fogo e com o som de sirenes.
   - Muito bem. Isso é um belo progresso. Você está certo, zero-zero-três. Agora me diga: Onde você estava?
   Fechei os olhos para me proteger das luzes em flashes de lembrança, e a escuridão revelou segredos do passado. Senti o toque de água salgada e o vento noturno. Então respondi:
    - Na ponte interestadual. Era noite, o mar estava agitado. Você apareceu com a ambulância e as luzes, e me chutou. "Está vivo" você disse. Duas ou quatro vezes, e o motorista também me olhou.
    - E depois, zero-zero-três?
    Ainda com os olhos fechados, continuei:
    - Depois disso eu estava em uma cama, amarrado, coberto. Me lembro da dor nos pulsos, mas algo maior. Algo pior... Eu não sentia minhas pernas. Eu estava agitado. Eu gritei, implorei e chorei até cair no sono. E vocês não fizeram nada. Não atendiam nenhum dos meus pedidos.
    - O que você pedia?
    - Eu queria ver minhas pernas. Eu... Eu gritei, eu queria ver o que havia de errado com elas, mas vocês, filhos da puta, não deixavam. Não tiravam aquele maldito lençol, e as ataduras.
    - Sim. Eu também me lembro disso, zero-zero-três, não precisa esbravejar. Acalme-se, estamos apenas tentando analisar o estado da sua memória, está bem? Excelente. Agora me diga o que estava te incomodando.
    - Já disse, eu não sentia minhas pernas.
   - Mas não é verdade também, zero-zero-três, que quando finalmente retiramos suas ataduras você viu que suas pernas, apesar de fracas pelo tempo de recuperação das fraturas, estavam normais?
    - Eu não me lembro de quebrar as pernas!
    - É claro que não se lembra. O acidente também havia danificado a área do seu cérebro responsável pela memória.
  Olhei para as pernas e passei os dedos pelas incontáveis linhas de cicatrizes e suturas. Eram idênticas em precisão às cicatrizes em minhas costas, têmporas, pulsos e no lado esquerdo do meu peito. Eu não sentia dor ao tocar as cicatrizes, graças à admirável habilidade de quem havia me suturado. Apesar de não sentir dor, eu também não sentia mais nada. Era como tocar a carne envelhecida e fria num frigorífico. Havia tato, mas nenhuma sensação. Não havia familiaridade alguma. Enchi o peito e finalmente reuni a coragem para verbalizar a minha loucura:
  - Estas não são as minhas pernas! - eu disse, fazendo minhas escravas habilmente implantadas me obedecerem. Me pus de pé. - E você me deu os olhos de um homem cego, ou quase isso. Eu... Eu me lembro de ter um nome, mas não lembro qual é! Eu me lembro da bebida, mas eu nunca fui escravo dela como essas pernas falsas são de mim - avancei até a doutora Stein, mas a corrente me deteve, tilintando tensionada entre meu corpo e a parede. - De quem é esse corpo, sua vaca? - Eu bradei, mas ela apenas sorriu em escárnio.
    - Qual o meu nome?
    Mas ela não respondeu. Depois de fazer anotações, ela finalmente abriu a boca.
    - Tivemos muito avanço, zero-zero-três. Você sem dúvidas está vivo e recuperando a memória. Quanto às suas perguntas, eu espero que você mesmo encontre as respostas. Tome, fique com esse espelho. Olhe-se o quanto quiser, e continue sua investigação. Se seus membros, olhos e língua estão ligados ao seu corpo, então veja seu reflexo; de quem mais eles poderiam ser, senão seus? Quando te encontramos você estava à beira da morte, quebrado, largado e esquecido. Sangrando como um mendigo. Um indigente. Olhe-se no espelho. Agora você está forte, saudável, uma verdadeira prova VIVA dos milagres da ciência e da medicina. Olhe-se no espelho. Por que você quer descobrir seu nome de um passado como aquele, se a partir de agora você pode se construir para o futuro? Diga-me, zero-zero-três: Qual é o seu nome?
    As luzes rápidas da porta abrindo e fechando me maltrataram para depois me jogarem em solidão, como meus fragmentos de memória, como este corpo estranho e remendado. Se eu perder os braços, as pernas, todos os sentidos, e se meu coração for separado de mim, onde estará meu eu? Se eu for reconstruído, qual parte carregará minha essência, e meu nome? Ainda com a pergunta da Doutora Margot Stein ressoando nesses ouvidos, olhei no espelho. E então eu vi minha alma. Vi meu rosto e enxerguei meu nome. Eu vi a escuridão.

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