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Meus dedinhos

Onde estavam meus dedinhos ficou uma marca de agarrão. Eles agarravam o outro pulso, que tremia todo, até a carteira. Era minha hora de levantar e mostrar a cara e o jeito torto de andar até o centro da sala-de-aula e recitar um poema. Mas eu estava trêmulo e nervoso.     A mão direita largou o outro pulso, a mão esquerda soltou a carteira, e sob comandos da professora, me levantei. Meus dedinhos que seguravam a carteira encontraram meus dentes e comecei a roer as unhas. O sacudir se espalhou pelo corpo enquanto fitava os olhos tétricos da professora; eles estavam pesados atrás do óculos de gatinho com armação transparente. Ela achava que lhe dava um ar juvenil. Na verdade lançava sombras pela testa que pareciam chifres. Ela estava alarmada. - O que você fez?!    O calor líquido se espalhou pelas minhas pernas como mercúrio. Não só leve, mas veloz e quente, quente, muito quente. Assim como meus dedinhos. Os pingos escarlates no chão indicavam o caminho de volta ao lugar onde eu tin…
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Mantra III

Não dá pra listar tudo aquilo que eu posso acreditar. Eu acredito na volta dos militares apesar da familiaridade, da facilidade, da memória... Eu acredito nesses e outros terrores. Eu acredito em genocídios piores. Eu acredito na estupidez humana. Os desastres que são acreditados são menores do que os créditos da minha tragédia imaginada. Eu acredito no heroísmo da vontade e em salvadores e ascetas. Eu acredito em milagres e invisibilidades. Eu acredito que há espelhos virados para dentro e nos vinte e dois arcanos maiores. Eu acredito no caminho óctuplo, nos sete pecados, e nas capitais do mundo, nas fronteiras e linhas imaginárias e no poder das palavras. Eu acredito nas diferentes culturas que se tornam a mesma quando demolidas até o átomo. Eu acredito em tudo. Eu acredito nas vindouras explosões– aqui, ou no coração das estrelas. Eu acredito que crio sigilos, que estão comigo em algum abismo enquanto eu tô caindo. Eu acredito que o sonho não é apenas um lugar e que meus personage…

Friburgo

O que havia?  Uma casa abandonada  transformada num castelo em ruínas. Em cada lajota havia uma ideia. em cada mineral, um plano. Um chute - uma cobra e depois escorregando pelo rio frio antes de se secar com lareira e muitos panos. Em cada tiro, o alvo. E lá em cima havia tesouros de revistas,  reprises televisivas. Mentiras, brincadeiras, memórias,  e Pepitas.

Brilhante

Seta Brilhante De hoje em diante Dê passos calculados. Seja como flecha certeira que não suspira nem respira fundo mas que voa e sibila se aprofundando na mira. Mas vá certeira, não se perca, seja a própria matemática: Retese o arco, sibile e percorra pra se lançar ao longe no escuro onde o brilho fulgura. Seja brilhante Seja distante e Contudo, siga.

Mel de Coruja

O sol passava horizontalmente pelas frestas da cortina como pinceladas retilíneas, porque a janela estava virada para o leste. O adormecido nem precisava do despertador, mas mesmo assim o havia colocado para as 7:15. O dedo repetiu a memória muscular e apertou o snooze... 8:30, porque ele não tinha compromissos marcados. 9:45, porque no inverno é bom ficar na cama até mais tarde, e o adormecido tinha assistido Além da Imaginação até as 3:30 da manhã.   Quando despertou de verdade, enrolou por mais dez minutos embaixo das cobertas.  Preparou o café conferindo mensagens, e em seguida lavou a boca do gosto amargo com um Carlton. O homem desperto adorava trabalhar em casa, pois fazia seus próprios horários e conduzia a sua vida da maneira que decidia. É claro que o homem desperto era também um homem endividado, além de atrasado em seus trabalhos, graças à arte de procrastinar assistindo antigos seriados de ficção científica.  A tv estava interessante depois do café-da-manhã composto de …

Reticências são 3 Pontos Finais

Os jogos são concluídos mas a história se desenrola apesar dos dados.
. Será que é verdade que morrem todos os servos e criados quando matamos o Chefão? . Onde está a conclusão,  se a vida é feita de finais em procissão misturados em miragens?
. Como ele sempre esteve aqui,  eu não vivi sob tutela do fim. Eu vivi acabando.

Nós

Sua religião deve abençoar com segurança  porque os fantasmas são reais. Seus hinos são de vitória, vaidade e vingança (não por uma compensação histórica) mas porque somos todos apenas animais. Pode ser que agora nós roubemos os mártires e pasteurizemos o caminho para os outros planos. Pode ser que os meus hinos  tenham sido produzidos mediante fraude  porque se acelerar o ritmo dos campos de algodão e dos pântanos o que falta é uma melodia pior cantada na voz de homens brancos.