Pular para o conteúdo principal

Postagens

Vortex em Rouge

Antes da noite cair, suas roupas já haviam tocado o chão. A silhueta era lilás contra as cortinas feéricas, e o cabelo tinha o mesmo perfume que o nome dela: Lorena. Inspirei o ar com cuidado e ouvi meu coração como a máquina escarlate que me trouxe até ela, mas respiro com cuidado. Respiro e aperto as mãos. Sinto o cabo de madeira através do couro da luva e quase o toque delicado do metal na ponta. Mas não a ponto de me distrair em minha emboscada. Ela desliza nua pelo quarto e pega o pincel. Na tela ela dança fazendo as penas de um pelicano bordô.
      Observo com calma enquanto ela transporta tinta com pinceladas leves para a superfície da tela. Os mamilos médios naquele tom meio caramelo ficariam ótimos num cinto novo. A pele clara contrastaria de maneira sublime com o escarlate sanguíneo. Como um Jackson Pollock do inferno. Espero ela terminar sua pintura para que eu possa começar a minha.       Ela se vira e sorri para mim. Estava contente com sua "obra prima". Gi…
Postagens recentes

Origem

Tem coisa que não se pode negar tá no sangue, tá no solo e no clima e eu não to falando de raça.  Tem coisa que não se pode fingir. Eu acordo no deserto ou na montanha com os olhos e garganta detonados  porque o que mais me falta é o sal no ar. Meu coração pulsa no ritmo de locomotivas e vagões de outros países e outros planetas mas quando regride no compasso vem como black metal tocado no pandeiro.  Tem coisa da qual não se pode fugir. Me sinto muito pertencente quando a festa mostra o diabo em meio aos passos derrubando Jesus na Sapucaí.

Gramática

Você não sai
não fala
não joga nada
não sorri.
Você é um saco
só passa a vida nos segundos repetidos
seguindo com os olhos
o que as pessoas fazem
mas você nem sabe
o que é que deveria fazer.
O problema dos verbos
é terem sido verbalizados por sujeitos
que transitam entre fenômenos
para dar-lhes nome e objeto
quando a verdade da semântica
é oculta e indeterminada.
Você não é
não fala
não ri
não pensa nada.
você só é um tecido
de linhas de gramática.


Ikai - Parte 6

A confusão da doutora ficou evidente por seus olhos, que foram de um lado ao outro em seu escritório. Ela estava sentada em uma cadeira confortável e eu estava reclinado num divã. A encenação era para ela, mas com certeza eu estava sendo analisado. Ela queria ter certeza que eu tinha emoções; uma certeza que eu apenas acabara de adquirir, mas meus olhos não iam de um lado ao outro como os dela.    - Poderia explicar, Ikai?    - Creio que será confuso, doutora.    - Eu aceito o desafio – ela deu um gole de chá e pousou a xícara na mesa, decidida. Seus olhos se fixaram diretamente nos meus.    - Doutora, os humanos possuem espírito?    - Peraí Ikai! Você não disse que ia ser tão confuso. Além do mais, nosso assunto não são as pessoas.    - Eu prometo que a metáfora fará sentido.    Ela me fitou sobre os óculos e deu mais um gole de chá, dessa vez mais longo. O calor embaçou de leve as lentes.   - Bom, Ikai, Como uma cientista eu sou obrigada a fornecer uma resposta suficiente para um critério m…

Ladrilhos

Espero que minhas palavras não te façam se sentir violado. Apenas verdadeiro. Quando abri os olhos, a única verdade visível era que eu estava deitado no assoalho, porque todos os outros detalhes estavam borrados. Olhei para os lados. Não consegui virar a cabeça, apenas um pouco os olhos para os quatro cantos daquele quarto. Só então os outros sentidos começaram a me invadir. Enquanto percebia que estava mais próximo à uma parede, e amarrado ao chão, também fui assaltado por outra verdade. E a violência dela tinha acontecido comigo. Nunca peçam pela verdade. Eu estava sangrando. Eu estava amordaçado, pinçado ao chão como uma mariposa no quadro de um colecionador. Os outros sentidos me assaltaram com vários cheiros metálicos e de dejetos. Não. Poupemos a educação. Cheiro do meu cu todo cagado e dilacerado por qualquer instrumento rural. O outro sentido era o terrível zumbido de moscas que pousavam nas minhas feridas abertas e na merda se espalhou infectando os meus órgãos abdominais. Mas…

Ikai - Parte 5

A dualidade se desfez, ao menos por um tempo, porque eu estava desligado. Quando meus sentidos se expandiram do chip para meu corpo de metal, eu olhei em volta, e não entendi. Não podia ver meu corpo nem qualquer coisa à minha volta, apenas um amplo espaço escuro. Embora eu registrasse em meu mainframe digital – no meu “campo de visão” – a temperatura e dimensão de um quarto, eu não o enxergava. Eu também podia cheirar o perfume asséptico e ionizado, bem como sentir sutis lufadas de ar... Mas era como se minha consciência deslizasse por um não-espaço. Eu estava numa imitação da nuvem. Quando este pensamento cruzou meu cérebro positrônico, a ilusão começou a se desfazer como blocos de luz organizados. A imensidão escura era uma projeção que fora capaz até de confundir meus sentidos integrados e fazer com que até meu corpo de metal parecesse ausente. Mas ele estava lá. Eu estava lá. O cômodo revelado era amplo e oval. Na parede curva janelas horizontais mostravam a paisagem verdejante que…

Ikai - Parte 4

Desci pelo elevador do Complexo Habitacional Manjunath com a unidade Xátria e Harker Gibb. Não havia nenhum defeito no funcionamento do elevador, mas a curta viagem vertical comportou uma cascata de pensamentos. Sem saber porque, computei as horas restantes da decoração programada do apartamento, encontrei uma outra forma para derrotar o rei na partida de xadrez, calculei o valor de reforma do sofá, pensei na comida que ninguém mais consumiria e vi que estava me despedindo de maneira prática. Pragmática. Programática.     As portas do elevador se abriram e vi novamente o robô porteiro, que ainda tinha a feição de vergonha e tristeza. Eu sabia que sua programação não era capaz de produzir verdadeiros sentimentos, mas apenas a aparência deles. Se eu mesmo, o mais avançado tipo de robô doméstico, dotado de sentidos estendidos e orientações programáticas de zelo e atenção, não possuía de fato sentimentos, como poderia um robô mais simplório sentir qualquer coisa? Aquilo era um teatro…