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Postagens

Uma refeição solitária para o pistoleiro

    A cuia de madeira cheia de feijão cozido com barriga de porco era devorada ferozmente por uma boca fina, emoldurada por um cavanhaque grosseiro. O olhar sempre atento, por cima de um nariz achatado e um par de cicatrizes. Aquele casebre rancheiro era pequeno demais para a fome daquele homem. Uma velha mesa e uma cadeira de balanço emolduravam o cômodo. O cavalo amarrado lá fora, sempre pronto pra sair. A Colt encoldreada na cintura, sempre pronta pra atirar.     O vento seco e seus odores já tinham avisado o que viria, contudo, quando seus olhos tocaram aquela silhueta longínqua a alma já sabia o preço do pecado. Engoliu seco seus pensamentos mais obscuros, calçou as botas surradas, se arrastou até a estante e beijou o resto daquele velho uísque. Ascendeu um cigarro,  apanhou o chapéu e pôs-se à porta de casa. O sol refletia os cabelos dourados. Era como uma miragem. Tão doce que ele salivava. O sabor da infância perdida logo traz seu amargor e ao cru...

Vortex em Rouge

           Antes da noite cair, suas roupas já haviam tocado o chão. A silhueta era lilás contra as cortinas feéricas, e o cabelo tinha o mesmo perfume que o nome dela: Lorena. Inspirei o ar com cuidado e ouvi meu coração como a máquina escarlate que me trouxe até ela, mas respiro com cuidado. Respiro e aperto as mãos. Sinto o cabo de madeira através do couro da luva e quase o toque delicado do metal na ponta. Mas não a ponto de me distrair em minha emboscada. Ela desliza nua pelo quarto e pega o pincel. Na tela ela dança fazendo as penas de um pelicano bordô.       Observo com calma enquanto ela transporta tinta com pinceladas leves para a superfície da tela. Os mamilos médios naquele tom meio caramelo ficariam ótimos num cinto novo. A pele clara contrastaria de maneira sublime com o escarlate sanguíneo. Como um Jackson Pollock do inferno. Espero ela terminar sua pintura para que eu possa começar a minha.       Ela se...

Origem

Tem coisa que não se pode negar tá no sangue, tá no solo e no clima e eu não to falando de raça.  Tem coisa que não se pode fingir. Eu acordo no deserto ou na montanha com os olhos e garganta detonados  porque o que mais me falta é o sal no ar. Meu coração pulsa no ritmo de locomotivas e vagões de outros países e outros planetas mas quando regride no compasso vem como black metal tocado no pandeiro.  Tem coisa da qual não se pode fugir. Me sinto muito pertencente quando a festa mostra o diabo em meio aos passos derrubando Jesus na Sapucaí.

Gramática

Você não sai não fala não joga nada não sorri. Você é um saco só passa a vida nos segundos repetidos seguindo com os olhos o que as pessoas fazem mas você nem sabe o que é que deveria fazer. O problema dos verbos é terem sido verbalizados por sujeitos que transitam entre fenômenos para dar-lhes nome e objeto quando a verdade da semântica é oculta e indeterminada. Você não é não fala não ri não pensa nada. você só é um tecido de linhas de gramática.

Ikai - Parte 6

       A confusão da doutora ficou evidente por seus olhos, que foram de um lado ao outro em seu escritório. Ela estava sentada em uma cadeira confortável e eu estava reclinado num divã. A encenação era para ela, mas com certeza eu estava sendo analisado. Ela queria ter certeza que eu tinha emoções; uma certeza que eu apenas acabara de adquirir, mas meus olhos não iam de um lado ao outro como os dela.    - Poderia explicar, Ikai?    - Creio que será confuso, doutora.    - Eu aceito o desafio – ela deu um gole de chá e pousou a xícara na mesa, decidida. Seus olhos se fixaram diretamente nos meus.    - Doutora, os humanos possuem espírito?    - Peraí Ikai! Você não disse que ia ser  tão  confuso. Além do mais, nosso assunto não são as pessoas.    - Eu prometo que a metáfora fará sentido.    Ela me fitou sobre os óculos e deu mais um gole de chá, dessa vez mais longo. O cal...

Ladrilhos

Espero que minhas palavras não te façam se sentir violado. Apenas verdadeiro. Quando abri os olhos, a única verdade visível era que eu estava deitado no assoalho, porque todos os outros detalhes estavam borrados. Olhei para os lados. Não consegui virar a cabeça, apenas um pouco os olhos para os quatro cantos daquele quarto. Só então os outros sentidos começaram a me invadir. Enquanto percebia que estava mais próximo à uma parede, e amarrado ao chão, também fui assaltado por outra verdade. E a violência dela tinha acontecido comigo. Nunca peçam pela verdade. Eu estava sangrando. Eu estava amordaçado, pinçado ao chão como uma mariposa no quadro de um colecionador. Os outros sentidos me assaltaram com vários cheiros metálicos e de dejetos. Não. Poupemos a educação. Cheiro do meu cu todo cagado e dilacerado por qualquer instrumento rural. O outro sentido era o terrível zumbido de moscas que pousavam nas minhas feridas abertas e na merda se espalhou infectando os meus órgãos abdominais...

Ikai - Parte 5

            A dualidade se desfez, ao menos por um tempo, porque eu estava desligado. Quando meus sentidos se expandiram do chip para meu corpo de metal, eu olhei em volta, e não entendi. Não podia ver meu corpo nem qualquer coisa à minha volta, apenas um amplo espaço escuro. Embora eu registrasse em meu mainframe digital – no meu “campo de visão” – a temperatura e dimensão de um quarto, eu não o enxergava . Eu também podia cheirar o perfume asséptico e ionizado, bem como sentir sutis lufadas de ar... Mas era como se minha consciência deslizasse por um não-espaço. Eu estava numa imitação da nuvem. Quando este pensamento cruzou meu cérebro positrônico, a ilusão começou a se desfazer como blocos de luz organizados. A imensidão escura era uma projeção que fora capaz até de confundir meus sentidos integrados e fazer com que até meu corpo de metal parecesse ausente. Mas ele estava lá. Eu estava lá. O cômodo revelado era amplo e oval. Na parede curva...