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Asma

Volta, asma volta com a irmã paralisia. Vem mancando e arquejando para revelar o que ficou escondido nas voltas e revoltas do dia-a-dia. Volta infância, e trás contigo a asma pra arrancar meu fôlego com novidades. Voltem dias, trazendo também a paralisia e troquem a heresia de adulto pela velha e sábia teimosia. Volta, asma.  Volta também, paralisia.

Pintura

Eu te imagino deitado, de perfil, pintado em aquarela.  Eu conto cada pincelada tocando a cor na tela. A tela agora é você.  Eu te imagino deitado, enquanto a tinta solidifica pra mais tarde esfarelar e decompor no chão lançando cheiros e fogos fátuos. Eu acredito que você é feito de água, e irá regar o mundo. Eu sei que você é regra, feita e desfeita em palavras e outras coisas abstratas Eu sei que você é o mundo,  e o céu ordenado. E eu sei que quando seu poder emudecer  eu vou regar o chão com sal.

Homem Moderno II

As palavras não cabem em 140 espaços. Os olhos inundam colírio e suportam lentes da vida em 4K. Estamos todos descritos na rede enquanto viajamos contando as milhas mas nunca os passos. Vamos marcar um date online, em streaming, em HD? Porque como não sou livre, vou ver TV. Como não tenho forma, me encaixotei.

Erosão

Digo que cheguei com os dedos Pra tocar seus ouvidos com a língua muda.  Digo que mudei os desejos embora eles surjam quando a viagem é profunda. Conto as moedas pra quitar o débito que já venceu como se desfez o vento. Quem sabe não fico imóvel e em silêncio como uma estátua grega que perdeu as cores mas não está em ruínas e nem imunda? Quem sabe por quanto tempo é a espera? Com que pressão atmosférica um gesto se torna intenção, força e movimento?

Rarefeito

Se eu respirar bem devagar inflando os pulmões como lençóis da caravela eu irei a nenhum lugar. Se eu inflamar o ar do peito enquanto a carne derrete embaixo dos cabelos talvez eu só me desfaça em cinzas. Se entre as costelas e vértebras se acomodarem nuvens e paisagens,  que eu inspire devagar...  Mas que a beleza que passa entre os olhos  revele também os meus erros. Certamente ao expirar somos todos soprados rarefeitos.

Pelúcia

No apartamento de janelas enormes vivia o gato Lucrécio, o cão Balbino e João. João estava de frente à janela enquanto esperava o sono vir, observando as poucas pessoas passando à distância como fantasmas. Do lado de dentro as quinquilharias se acumulavam para dar coerência à vida de João. Pelo chão havia pêlo de animais, moedas, poeira, papéis amassados e símbolos de desistência. João andava pelo apartamento olhando pro lado de fora e percebendo que seu reflexo no vidro também parecia um fantasma. Terminando o último cigarro, decidiu que ia dormir. Saltou e chutou os entulhos no chão até encontrar a própria cama. Olhou em volta antes de dormir e percebeu os olhos brilhantes de Lucrécio escondidos no meio da bagunça e o rabo de Balbino sacudindo devagar. Com um assovio, os dois subiram na cama e deitaram com João, como sempre faziam. Balbino tomou o lado da cama que há muito tempo fora habitado por mulheres e Lucrécio deitou nas costas de João, que por sua vez dormiu de barriga ...

Armadura

Eu estou vestido com as roupas e as armas de vento. Tô no caminho do meio, de pé como as cinzas de um incenso que já acabou. Isso é equilíbrio? Eu estou com placas de metal e de espírito para que eu sangre menos, deitado à beira da beirada do cu, porque onde estou não combina com o drama de um precipício. Eu tô num recomeço de esforço desfeito e auto-infligido mas vestido com a armadura porque eu já esperava pelo golpe certeiro.