Pular para o conteúdo principal

Postagens

Kirtimukha

O tempo acaba com o tempo- Sem início, sem fim, Que nome há pra isso? A vida devora a vida, E pelo seu fim Reinicia. A face da glória se devora E o pôr-do-sol a aurora imita.

Tempos de Guerra

O dia passa com bravatas E o seguinte com ruínas. Lesmas ensaboam as praças e vespas plotam um motim. As formigas exibem suas armas  contra a super potência dos cupins. Os cães protegem as casas e as cigarras choram pelo fim. O tempo, como um tigre, boceja e com um salto sai de sua tocaia. Ele vem com passadas pesadas e se deita na parte mais verde do jardim. O dia passa com bravatas E o seguinte com ruínas. Lesmas ensaboam as praças e vespas plotam um motim. O tigre dorme.

Meditações em Azul Escuro

Meditando sobre me ver como um personagem,  olhando à distância,  acabei arrumando o armário;  amarrei os sapatos.  Me cerquei dessa sonolência adequada  mas deslocada no tempo.  Me vi perdido e achado na linguagem,  na arte,  no movimento,  mesmo estando parado, no momento.  As soluções estão nas pontas dos dedos; e desenhando ou escrevendo eu vejo a infância à distância, mas não vejo simetria.

Desintoxicar

Vou cansar meu corpo para suar a toxina e vou ferir meus dedos - ao invés de arrancar os cabelos - desenhando e escrevendo. Vou me purificar desse veneno me encharcando de terebintina e vou tacar fogo nos meus membros e vomitar conselhos obscenos. Vou arrancar as camadas de pele e osso e desintegrar o reboco do coração. Não vou manter intacto o que o passado cobriu sem pedir licença. Vou me desfazer até que só reste a saúde não controlada por remédios e favores. Quero me limpar retrocedendo até o segundo incandescente antes do meu nascimento

Aterro de Vidas

  Em Agosto de 2014 o fotógrafo e amigo Andrey Botelho me convidou para elaborar um texto para acompanhar um projeto fotográfico sobre famílias vivendo no aterro sanitário de Montes Claros - MG.  Com o tempo as perspectivas e palavras mudaram, mas a realidade permaneceu revoltante e triste. Publicado originalmente no site de   Andrey Botelho   (onde outras fotos podem ser conferidas) republico agora o texto Aterro de Vidas.    Pela manhã, Raíssa brinca com os cachorros e as galinhas. Entusiasmada, mostra o novo cachorrinho que não parava de latir perto do fogão à lenha. Dona Dada, mãe de Raíssa, escuta com atenção as instruções para o remédio comprado na farmácia, e depois me explica sobre as plantas no meio do lixão: “Saião é remédio pro ouvido”. As vizinhas conversam, riem e trabalham; sujas até os cotovelos, sem parecer perceberem o cheiro que dá dor de cabeça.      Há mais de vinte anos, Dona Dada é uma das pessoas que mor...

Saímos para Jantar

Saimos pra jantar Eu, Satanás e Belzebu. Belzebu, esfomeado, comeu filé de mosquito flambado Satanás, mais elegante, comeu cadáver flamejante. Eu, indeciso, pedi a Cthulhu uma sugestão.  Mas de Rl'yeh num rompante inesperado ouvi um grito de frustração:  "O que acha que eu sou, Tio Lu? cozinheiro do diabo?  O menu era um papiro da tumba de Azatoth cuja linguagem cabalística era revelada  com o bater de asas de um corvo (ou uma gralha) que insistentemente explicava:  o couvert artístico, pra que os clientes tenham paz Estes poetas do obscuro cobrarão...  Nunca mais! E no muro de pedra estava escrito Que com o alinhamento dos planetas,  ou toda terça-feira “Abandonarás toda esperança vós que entrais”

The Cat

   The cat arches its back and turns.    She slides under blankets and reaches a white paw.    The cat purrs my name and comes    to climb me and hold me to the floor.    The ginger cat sings my sins and repeats    scratching at every open sore.    The cat falls asleep with the scent of its species    to visit Egypt’s dream-distant shores.    The cat purrs my name and I come    but she finds her way through the door.