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Condutor

Esta poesia foi inspirada na Divina Comédia À mão agourenta cuja torpeza faz do meu fôlego um sobressalto da manada, que entre a sístole e a diástole, finca-me profundo um espinho certeiro, a ela entrego minha alma. Entrego minhas lembranças tecidas em um pano roto,  minha leveza de vida em um sopro,  entrego-me inteiro, com duas moedas ao barqueiro. Age ligeiro, condutor do peso moral de um morto, e me leva ao julgamento -  de ser fincado nas mandíbulas da ave de rapina  em um tempo que cada segundo atropela  o outro em um recomeço, ou me leva à sentença que afasta de mim os abutres finais e me dá a alforria para um último vôo, como se fosse meu nome Orfeu, Fausto, Virgílio, ou Prometeu.

Mantra I

Você sabe mas por quê você não sente esse farejar essa baforada quente do lobo que está no seu calcanhar? Seu nome é razão é fraqueza é propósito e o nome é a presa quem dá. Não vá se lembrar no penúltimo momento que sua ética não foi a da compreensão. Não vá computar menos que sete vezes setenta vez sete porquê depois não há reparação.

Chagas (ou Carta de Amor a Kafka)

 A casca gelatinosa começou a se romper com as inevitáveis luzes. O que me dividia do mundo era fino e fértil, e quando eu rompi o ovo senti o vento cobrir meus anéis. Arrastei o corpanzil pelo chão enquanto comia, e senti que eu estava mudando. À minha volta vários voavam, mas eu ainda estava presa ao chão de carne e sangue. Eu precisava crescer, precisava ganhar asas, ganhar vontade. Sem esses poderes, eu ainda era só uma larva na carne, e a carne era a comida.   Entre os arrastares, eu aprendi sobre a vida inteira - A vida é o alimento.  Esperar era quase como dormir. Sem esperar para acordar, pois tudo o que eu conhecia desde sempre estava ali. Eu cresci gorda, como uma larva gorda, como um bebê gordo. Como se espera que cresça quem acabou de nascer. Mas eu já estava mudando.  Quando senti os olhos secos, os molhei com a língua e uma pata cavernosa. Tudo que eu via agora passava pelas mil lentes dos meus olhos. As minhas asas como rotores sônicos...

Tributo

Paga um tributo ao trovão distante E no fogo acha o alento para a noite. Na toccata e fuga faço uma tocaia,  e me escondo em um acorde fugidio. A tempestade mesclou a noite com o dia e prolongou suas gotas ao redor do fogo através da melodia.  Paga um tributo ao trovão distante E no fogo acha o alento como se a noite não fosse fria.

Estandarte e porta-voz

Um estandarte para o ódio e a ordem, vestido com uniforme, sufocando o pescoço e o peito, com o brilho polido das botas e no olho gelado do aço. A ordem é em código: com propaganda o pecado vira atração, e a fúria um grito uníssono da maioria, descendo como fogo do céu. Um estandarte para o ócio e explosões que varrem as cores desses largos espaços fechados, restando apenas cinzas de um passado incinerado. A sentença, a prece, o slogan, o mandato, o sermão, o planejamento, o toque de recolher,  um homem e uma mulher... Estandartes da cólera e do pecado – vermelhos. Eles passam acelerando o tempo que poderia terminar com esperança, mas que morreu sufocado.   Hierarquia: Um sacerdócio de pontos finais.

Café

A vida tá ali na meiúca entre a dopamina e a serotonina, na escolha entre mulher e menina, no começo da escola e quando ela termina, e nos intervalos para café. As chances são forçadas contra a repetição, no intervalo das distrações sem sentido e no pedido de aumento, ou demissão. A vida tá nos di-minutos momentos da pergunta se tá forte esse café.   O que que você quer.   E que é que a vida é.

Mãos

Quando era um bebê a humanidade estendeu o braço para tocar a realidade - segurou o dedo do pai tocou o rosto da mãe e ainda precisava se segurar. Precisava tocar e se perguntar "será se isso é real?" Tinha que se apoiar e estava sempre em desequilíbrio. Quando era jovem a humanidade estendia o braço para o cigarro, pras ferramentas e pro pecado. Ainda caía, mas já sabia como fazê-lo. Também gostava das artes - e com suas mãos enfileirava letras, jogava pigmento, usava a espada, ou regia um concerto concreto na escultura, além de massagear o próprio ego. No cair da noite a humanidade usa os dedos nas teclas de piano e escreve cartas para os falecidos. A humanidade conta as contas no terço ou as horas apontando para o ponteiro enquanto ronda a casa sozinho. Nessa idade ela estende o braço pra agarrar-se à realidade antes que caia, mas sempre esteve caindo - esteve nas mutações do tempo, boiando no leito do rio cega para fonte ou foz apenas pres...