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Justa Causa

Minha justa causa é um luto pelos heróis de papel que morreram, pelos carros de brinquedo incendiados, pelo medo de demônios que em garotinhas se esconderam, e pelo excesso de repetição nas palavras achadas nas minhas posses, em meio às que outros escreveram. Os velhos desenhos de velhos e guerreiros com espadas estão na cruzada de se manterem válidos e vivos no arquivo morto do cotidiano de quem cresceu e acumulou coisas demais na gaveta, memórias pesadas e coisas de menos na prancheta. Mas são lutas crônicas cansadas.  Minha causa justa é o nascer. Descobrir o novo no antigo, É reabrir o livro, e se chocar Com as palavras cansadas de usar É botar pilhas novas no walkman E ouvir aquele disco favorito E com um sorriso... Ainda se fascinar. As personagens que usam máscaras Os guerreiros com espadas As lutas na campina O som dos tambores ao alvorecer Tudo isso vive em mim. Em meio a uma historia sem fim Também derrubo meus leões no coliseu, Tenho mi...

Pra deixar de ser porco

Uma ducha pra revelar o que em cada poro está escondido. Um banho pra limpar da poluição do cotidiano. E o porco Orwelliano  que andava em duas patas dava ordem em novafala como se fosse um humano. Instituiu: Todos animais são iguais, mas uns são mais iguais  que outros tantos. Tomei um banho.

Festa de boas vindas

Às quatro e trinta da manhã Seu Constantino já estava de pé, arrastando os chinelos no assoalho de madeira e indo de um lado pro outro, como seus pensamentos. Seus dentes estavam num copo d’água, e por isso ele não roia as unhas. Não era tanto nervosismo o que ele sentia, mas uma estranheza, como um viajante que acorda num quarto diferente. Neste caso era verdade, pois estava depositado no asilo como uma economia de família, um valor esquecido num banco de gente. Na noite anterior o enfermeiro havia explicado que os residentes gostam de preparar uma festa de boas-vindas para os novatos. Seu Constantino odiava festas de velhos. A única diferença entre sentar-se sozinho no quarto, ele pensava, era que na festa toda aquela gente velha se reunia num mesmo cômodo, mas estavam sozinhos. Era constrangedor. A experiência de oitenta e sete anos lhe ensinou que nessas ocasiões, a maioria ficava calada, parada, dormindo. Às vezes alguém colocava um Cauby Peixoto “pra dar uma animada”. Não f...

Coadjuvantes

Juliano passa pelo caixa e paga pelas balas e pelo Dramin. Daqui eu não consigo ver o rosto dele, nem o da moça atrás da registradora. O ônibus tá tremendo e não dá pra ouvir as vozes deles também. Esfrego meus olhos e arrasto o corpo na poltrona que cheira a cigarro. Estou me sentindo amarrotado e fecho meus olhos. Estou empacotado pra outra cidade e só sei que dormi por que a saliva que escorreu pelo meu queixo deixou minha barba gelada, no cantinho da boca. Nem vi meu irmão se levantar e descer na parada. Nem o vi voltar e se sentar na poltrona ao meu lado. Eu odeio viajar de ônibus. Ainda mais quando é pra esse tipo de ocasião, um enterro. O ônibus balança e me sinto mais acordado, na direção de uma despedida. Foi o Juliano que me falou: “Arruma uma mala que vamos ter que viajar. A prima morreu.” Ha onze horas ele falou isso e agora está calmo do meu lado, ouvindo algum reggae nos fones de ouvido e batucando nas coxas. Não é como se eu me importasse, também. Sei lá. Eu go...

Homem Moderno

Eu estou no tempo, nem perdido nem achado. Tô navegando e compondo o momento.  Estou contemporâneo, conectado, recarregado e sem fio  Colhendo informações de uma rede como o pescador tira peixe do rio.  Estou ali e também em uma nuvem, num banco de dados.  Tô concentrado em um chip de grafeno, situado a oito minutos da minha fonte de luz.  Estou monografado, citado, citando e estou morrendo.  Fui enquadrado sem carteira, sem vergonha, mas remunerado.  Hoje em dia nem isso. Tempo difícil.  Sou um homem moderno, no tempo;  homenageando meus ídolos em redes sociais,  travando guerras em vídeos e despejando fúria em podcasts.  Fui linkado em um hypertexto, sou pretexto para stalkers  e sofro de depressão, estresse pós-traumático, e não tenho um segundo a perder. A verdade está lá fora, mas eu estou aqui dentro,  no templo do entretenimento.  Vivo no cinema, mas assisto o que quero on...

Ícaro

Eleva-se com bolsões de ar,  Eleva-se como palavras flutuantes . Ele vê outros horizontes e enche de sol os olhos Brilhando também as asas, o dorso, o corpo todo, Como se emanasse brilho próprio . Na guinada desses ventos, desenterra o verdadeiro rosto Há muito em si mesmo escondido, E então,  Torna-se Ícaro . Quis explodir cada fibra e cada cabelo Saber que o sangue possui uma voz da cadência do coração E que eu vai ouvi-lo murmurar nas artérias e vasos minúsculos E cansar seus músculos Como se houvesse uma escalada do corpo ao espírito da palavra . E então, quando Apolo aquecer o chão, Vai contemplar a promessa de ouro, E como se fosse feito de só palavras Sua vontade irá Alçar vôo . Eleva-se com bolsões de ar e chove cera e poesia.

The Flower

She swirls and sings. It’s not about the perfume. It’s the universe, in relation to all that has passed and will be, stumbling in a moment, as the most eerie scented relic. Transitory, delicate, enveloping in velvet touch a fragment of herself, carried by winged farmers that buzz under the sun, making honey and crossing the air in a freelong flight. It’s the attraction It’s the mystic wind blown under her petals while she whispers all colors. It’s her. She’s mystic in the sense that she won’t last for the last scene. ***pra quem ainda não está matriculado num curso de inglês: A Flor Ela rodopia e canta. Não é sobre o seu perfume. É o universo, em relação com tudo o que passou e o que será, tropeçando em um momento, como a relíquia mais misteriosa. Transitória, delicada, envolvendo em um toque aveludado um fragmento de si mesma, carregado por fazendeiros alados zumbindo sob o sol, fazendo mel e cruzando o ar em um longo voo livre. É a atração é ...