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Postagens

Homem Moderno

Eu estou no tempo, nem perdido nem achado. Tô navegando e compondo o momento.  Estou contemporâneo, conectado, recarregado e sem fio  Colhendo informações de uma rede como o pescador tira peixe do rio.  Estou ali e também em uma nuvem, num banco de dados.  Tô concentrado em um chip de grafeno, situado a oito minutos da minha fonte de luz.  Estou monografado, citado, citando e estou morrendo.  Fui enquadrado sem carteira, sem vergonha, mas remunerado.  Hoje em dia nem isso. Tempo difícil.  Sou um homem moderno, no tempo;  homenageando meus ídolos em redes sociais,  travando guerras em vídeos e despejando fúria em podcasts.  Fui linkado em um hypertexto, sou pretexto para stalkers  e sofro de depressão, estresse pós-traumático, e não tenho um segundo a perder. A verdade está lá fora, mas eu estou aqui dentro,  no templo do entretenimento.  Vivo no cinema, mas assisto o que quero on...

Ícaro

Eleva-se com bolsões de ar,  Eleva-se como palavras flutuantes . Ele vê outros horizontes e enche de sol os olhos Brilhando também as asas, o dorso, o corpo todo, Como se emanasse brilho próprio . Na guinada desses ventos, desenterra o verdadeiro rosto Há muito em si mesmo escondido, E então,  Torna-se Ícaro . Quis explodir cada fibra e cada cabelo Saber que o sangue possui uma voz da cadência do coração E que eu vai ouvi-lo murmurar nas artérias e vasos minúsculos E cansar seus músculos Como se houvesse uma escalada do corpo ao espírito da palavra . E então, quando Apolo aquecer o chão, Vai contemplar a promessa de ouro, E como se fosse feito de só palavras Sua vontade irá Alçar vôo . Eleva-se com bolsões de ar e chove cera e poesia.

The Flower

She swirls and sings. It’s not about the perfume. It’s the universe, in relation to all that has passed and will be, stumbling in a moment, as the most eerie scented relic. Transitory, delicate, enveloping in velvet touch a fragment of herself, carried by winged farmers that buzz under the sun, making honey and crossing the air in a freelong flight. It’s the attraction It’s the mystic wind blown under her petals while she whispers all colors. It’s her. She’s mystic in the sense that she won’t last for the last scene. ***pra quem ainda não está matriculado num curso de inglês: A Flor Ela rodopia e canta. Não é sobre o seu perfume. É o universo, em relação com tudo o que passou e o que será, tropeçando em um momento, como a relíquia mais misteriosa. Transitória, delicada, envolvendo em um toque aveludado um fragmento de si mesma, carregado por fazendeiros alados zumbindo sob o sol, fazendo mel e cruzando o ar em um longo voo livre. É a atração é ...

Os Nativos Pálidos

Quando os europeus chegaram à ilha não havia nenhuma pegada. Ela estava nua; habitada apenas por espaços vazios, árvores e suas sombras. Assim, a ocupação foi fácil. A resistência que os europeus enfrentaram foi apenas o tempo e os esforços exigidos para o término das construções. Fizeram casas, armazéns, igrejas. Em poucos anos as famílias se multiplicaram e dobraram a esquina das gerações. Os anos seguiram, sendo interrompidos apenas no dia da Grande Partida. Durante um eclipse lunar todos na vila de repente perceberam que durante todos aqueles anos não estiveram sozinhos. Parados, fitando a luz evanescente da lua, as silhuetas dos antigos começaram a aparecer. Elas apareciam em ângulos ignorados e pensamentos reprimidos. Elas não surgiram – apenas se mostravam ao sair de suas tocaias ontológicas. Ao final do eclipse, os nativos olharam para os europeus e se foram. Eles, os nativos, os furtivos, os pálidos residentes da ilha. Eles, que sempre estiveram entre os europeus, obse...

Sobre Criatividade & Sofá a céu aberto

-Esta é uma poesia de Ray Bradbury, sobre escrita e o cuidado com a criatividade. É uma das minhas favoritas. Sobre criatividade Vá com patas de pantera aonde todas as verdades minadas dormem.  Não esmague nem agarre, encontre e mantenha. Vá com patas de pantera aonde todas as verdades minadas dormem, Para detonar as sementes escondidas em segredo. Então, no seu despertar, um banho de riqueza; Saltos invisíveis, ignorados e deixados para trás Enquanto você se esgueira, bancando o cego Em seu retorno pelo caminho da selva. Onde você tinha se extraviado, encontre todas as coisas bagunçadas. Pequenas e grandes verdades emergem Onde você tropeçou em segredo selvagem ignorante Ou se fingindo assim. E, então, as minas foram minadas Num jogo fácil de passo e ataque e encontro, Mas principalmente de passo fluido, sem excesso de ataque. Atenção deve ser prestada, mas pela onça. Cuidado falso, como que indiferente, ignora cada milha E metáforas, como gatos atrás do seu sorriso, Cada...

LUMO

A abóboda se erguia de uma lâmina de água negra e dourada até o limite da visão. Na água paralisada uma canoa esperava que alguém a conduzisse até o centro, desenhando um raio naquele círculo gigante. No centro havia uma ilhota com um vegetal brilhante que emitia sons. A forma como a planta crescia – em simbiose com fungos e colônias de bactérias – exigia a escuridão: Seu ego era muito grande para disputar com o brilho de um sol, e por isso apenas no planetóide escuro Caronte II a planta aceitava existir. O planetóide exterior tinha uma crosta congelada, mas que abrigava em cavernas submersas vários bolsões de ar. Nestes bolsões a vida se espalhava homogênea na forma de plantas brilhantes. O Lumo, como era chamada a planta, também existia no Tártaro, que por sua vez era uma cúpula inteligente de tecnologia alienígena. Ela havia sido criada há muito tempo, e a raça que a ergueu deixou apenas aquelas paredes ovais e douradas como herança: o único habitat artificial capaz de gerar Lu...

Drakkar e Trirreme

Um de mim quer navegar o Drakkar no Tâmisa  e o Trirreme no Eufrates. Outras partes querem dormir. Às vezes as vozes recitam Wittgenstein e Foucault, relembrando Henry David Thoreau e trepando com Ayn Rand. Meu nome é Alexander Supertramp. Um de mim quer navegar o Dragão do mar Outras partes querem dormir Quero ser dinamarquês invadindo toda a Europa, e eu quero ver o sol despontar de manhã mas minhas partes dizem que é madrugada,  e me levam acorrentado prum sono  de apenas três horas.