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Necrópolis (ou Zumbis na Avenida)

O que fazer nessa pátria necrótica?  Ir ao papel com voracidade e medo  como se fosse 64? Esperar pelo pior numa vala coletiva  com a alma infectada por zumbis? Vários deles foram vistos em zombaria  como portadores da peste, na Paulista,  dançando com um caixão. O azul estrelado fica cinza-emaranhado  com a quarentena sentenciada e voluntária,  além das barras, canos, testas de ferro  Que cobriram de sangue o que foi o amarelo   do ouro...  mas cuja riqueza só ilustrou a bandeira com mentiras: Foi a cor de um passado monarquista,  e dum moleque anarco-capitalista que sempre se curvou à realeza dos que falam a língua inglesa... O zumbis batem continência para as forças estrangeiras,  pros generais, pros coronéis  e pro cadáver-capitão e dançam na avenida uma procissão fúnebre vestindo  a camisa da seleção. O azul se torna preto, o amarelo pinga sangue e o verde fic...

Prometeu Pós-Moderno

     A fresta de luz, suficiente apenas para a passagem da Doutora Margot Stein, trouxe todos os meus sentidos para um estado de alerta. O tempo que levou para ela trancar a porta bastou para que eu estivesse de pé e com as costas contra a parede. Ela andou até próximo de mim e sorriu com o escárnio de gerações.     - Como foi a noite?     - Longa - respondi, ainda comprimindo meu corpo para me manter distante.     - Sente-se, hoje vamos apenas conversar.     Obedeci, fazendo as pernas dobrarem, e escorregando as costas pela parede. A doutora se sentou à mesa, e o clique que ouvi indicou que ela estava gravando nossa conversa.      - Sete de março, são nove e dez da manhã... Lá fora o sol está brilhando e os pássaros cantando, mas você não teria como saber disso, não é mesmo, espécime zero-zero-três?     - Não, não teria - respondi.     - A luz ainda te incomoda, zero-zero-três? ...

Ikai - Parte 10

    - Para onde vai me levar? - perguntou Xátria.     Ponderei por um tempo indefinido, observando os olhos robóticos logo acima do corte brutal, que revelava mecanismos onde deveria haver nariz e boca de silicone, na cor azul.      - Não conheço bem a Nuvem. Pensei que pudéssemos explorá-la.     Os olhos de Xátria revelaram outra dúvida.     - É a sua primeira viagem?     - Sim. As unidades Xátria são capazes de se deslocar na Nuvem? - indaguei.     - Não. Apenas eu. Eu acho.     Poderei por mais um tempo indefinido.     - Conte-me.     Xátria se ajeitou na gôndola digital, enquanto minha sombra nos conduzia. Ele observou o horizonte, apertou as pálpebras de silicone que ainda restavam, e meneou com a cabeça.     - Aconteceu antes de ser trazido para o Laboratório. Muito antes daquela coisa toda que aconteceu no necrotério. Aconteceu durante algum ...

Ikai - Parte 9

  Minha consciência deitou na gôndola e o Navegante me levou deslizando pela Nuvem Autônoma de Virtualidades. Por um tempo fitei meu condutor refletindo o que ele representava, e conclui que, retirada a feição construída pelo meu subconsciente positrônico com o rosto de Yudhistira, aquela sombra só poderia ser eu mesmo, minha morte, minha sombra. A lacuna de onde derivava meus ainda inexplorados sentimentos. Eu ainda não estava convencido de que conhecida tudo sobre meu passado, e o peso das dúvidas fez a gôndola ficar pesada. Nas proximidades a nuvem de virtualidades refletia minha composição mental, minhas próprias lembranças. No horizonte onde havia Fios de Ariadne outros autômatos estavam sublimados, enquanto seus corpos de metal jaziam em hibernação nas cabines de recarga. O  Navegante estendeu sua mão de sombras na direção do horizonte, indicando o mesmo fio de Ariadne que eu contemplava. A aproximação revelou que as lembranças daquele autômato em hibernação eram...

Ikai - Parte 8

            - Olá, ele respondeu.             - Sei o que você é. - O que eu sou? - Uma projeção da minha memória sobre Yudhistira. O rosto do meu antigo dono assentiu, acendeu um cigarro, tragou longamente, e me desafiou com mais uma pergunta. - Eu sou o espírito de Yudhistira? - Não sei. Meu antigo dono riu de mim, e entre tossidas apontou o dedo na direção dos meus olhos e continuou o desafio - Me diga uma coisa Ikai, a capacidade de raciocínio positrônica vem acompanhada de hipocrisia também? Como pode uma criatura com todas as suas capacidades computacionais e análises heurísticas dizer se não sabe se sou ou não o espírito de Yudhistira? - Você certamente é a minha memória dele. O “espírito” se ajeitou, mas então acrescentei: - Você é o que restou dele. Por qualquer motivo a minha memória de Yudhistira calculou que ele não gostaria de se ver limitado a apenas isso, um...

Ikai - Parte 7

Por meses transitei pelo laboratório como um meteoro, descrevendo uma órbita excêntrica, muitíssimo distante dos demais residentes daquele sistema, mas vez ou outra perto o suficiente para estender a mão e dizer olá. Mas tal qual corpos celestes, fui me sentindo cada vez mais atraído, e em minhas peregrinações mentais e literais, acabei me tornando mais próximo dos outros. Acontece que criaturas sintéticas, tal qual corpos celestes, por natureza preferem um pouco mais de espaço, ao menos quando comparado com os criadores orgânicos, que anseiam pela colisão de corpos. No início preferia percorrer a imensidão dos salões circulares do Laboratório sozinho, olhando para o mundo verdejante de lá de fora contrastante com o branco ensurdecedor onde eu estava, e contrastando, sobretudo com o cheiro de curry, o conforto das almofadas, o prazer e a estratégia das jogadas, o perigo do cigarro. Eu contemplava e me perguntava, por que? Por que eu ainda pensava em Yudhistira, por que sentia e...

Laranja

O vermelho derrama como amor, transborda em prazer e ultrapassa todos os riscos. O azul é amplo como o rosto de Deus, infinito como também são as formas de ficar deprimido. O amarelo da riqueza é apenas isso, uma promessa muito bem escondida. O verde é como a vida: múltiplo, mutante, doente, eventualmente podre. O marrom além de ser uma bosta, é antiquado e soa como parece, um nome terrível O rosa é confortável, belo e vulgar. O roxo tem algo da realeza em ser venenoso, e preto e branco são coisas para quem não vê gradações de cinza. E laranja? Tocada na tela aridez chupada no pé acidez Soprada em fagulhas incêndio Aos pés do chefão infarto... Mas a morte só vem no pomar. Qual o lugar desse espectro de calor e frescor? No fogo? No filme? Na foto? Nas flores? Na fruta? No calor da dúvida, nessa lacuna.

Uma refeição solitária para o pistoleiro

    A cuia de madeira cheia de feijão cozido com barriga de porco era devorada ferozmente por uma boca fina, emoldurada por um cavanhaque grosseiro. O olhar sempre atento, por cima de um nariz achatado e um par de cicatrizes. Aquele casebre rancheiro era pequeno demais para a fome daquele homem. Uma velha mesa e uma cadeira de balanço emolduravam o cômodo. O cavalo amarrado lá fora, sempre pronto pra sair. A Colt encoldreada na cintura, sempre pronta pra atirar.     O vento seco e seus odores já tinham avisado o que viria, contudo, quando seus olhos tocaram aquela silhueta longínqua a alma já sabia o preço do pecado. Engoliu seco seus pensamentos mais obscuros, calçou as botas surradas, se arrastou até a estante e beijou o resto daquele velho uísque. Ascendeu um cigarro,  apanhou o chapéu e pôs-se à porta de casa. O sol refletia os cabelos dourados. Era como uma miragem. Tão doce que ele salivava. O sabor da infância perdida logo traz seu amargor e ao cru...

Vortex em Rouge

           Antes da noite cair, suas roupas já haviam tocado o chão. A silhueta era lilás contra as cortinas feéricas, e o cabelo tinha o mesmo perfume que o nome dela: Lorena. Inspirei o ar com cuidado e ouvi meu coração como a máquina escarlate que me trouxe até ela, mas respiro com cuidado. Respiro e aperto as mãos. Sinto o cabo de madeira através do couro da luva e quase o toque delicado do metal na ponta. Mas não a ponto de me distrair em minha emboscada. Ela desliza nua pelo quarto e pega o pincel. Na tela ela dança fazendo as penas de um pelicano bordô.       Observo com calma enquanto ela transporta tinta com pinceladas leves para a superfície da tela. Os mamilos médios naquele tom meio caramelo ficariam ótimos num cinto novo. A pele clara contrastaria de maneira sublime com o escarlate sanguíneo. Como um Jackson Pollock do inferno. Espero ela terminar sua pintura para que eu possa começar a minha.       Ela se...

Origem

Tem coisa que não se pode negar tá no sangue, tá no solo e no clima e eu não to falando de raça.  Tem coisa que não se pode fingir. Eu acordo no deserto ou na montanha com os olhos e garganta detonados  porque o que mais me falta é o sal no ar. Meu coração pulsa no ritmo de locomotivas e vagões de outros países e outros planetas mas quando regride no compasso vem como black metal tocado no pandeiro.  Tem coisa da qual não se pode fugir. Me sinto muito pertencente quando a festa mostra o diabo em meio aos passos derrubando Jesus na Sapucaí.

Gramática

Você não sai não fala não joga nada não sorri. Você é um saco só passa a vida nos segundos repetidos seguindo com os olhos o que as pessoas fazem mas você nem sabe o que é que deveria fazer. O problema dos verbos é terem sido verbalizados por sujeitos que transitam entre fenômenos para dar-lhes nome e objeto quando a verdade da semântica é oculta e indeterminada. Você não é não fala não ri não pensa nada. você só é um tecido de linhas de gramática.

Ikai - Parte 6

       A confusão da doutora ficou evidente por seus olhos, que foram de um lado ao outro em seu escritório. Ela estava sentada em uma cadeira confortável e eu estava reclinado num divã. A encenação era para ela, mas com certeza eu estava sendo analisado. Ela queria ter certeza que eu tinha emoções; uma certeza que eu apenas acabara de adquirir, mas meus olhos não iam de um lado ao outro como os dela.    - Poderia explicar, Ikai?    - Creio que será confuso, doutora.    - Eu aceito o desafio – ela deu um gole de chá e pousou a xícara na mesa, decidida. Seus olhos se fixaram diretamente nos meus.    - Doutora, os humanos possuem espírito?    - Peraí Ikai! Você não disse que ia ser  tão  confuso. Além do mais, nosso assunto não são as pessoas.    - Eu prometo que a metáfora fará sentido.    Ela me fitou sobre os óculos e deu mais um gole de chá, dessa vez mais longo. O cal...

Ladrilhos

Espero que minhas palavras não te façam se sentir violado. Apenas verdadeiro. Quando abri os olhos, a única verdade visível era que eu estava deitado no assoalho, porque todos os outros detalhes estavam borrados. Olhei para os lados. Não consegui virar a cabeça, apenas um pouco os olhos para os quatro cantos daquele quarto. Só então os outros sentidos começaram a me invadir. Enquanto percebia que estava mais próximo à uma parede, e amarrado ao chão, também fui assaltado por outra verdade. E a violência dela tinha acontecido comigo. Nunca peçam pela verdade. Eu estava sangrando. Eu estava amordaçado, pinçado ao chão como uma mariposa no quadro de um colecionador. Os outros sentidos me assaltaram com vários cheiros metálicos e de dejetos. Não. Poupemos a educação. Cheiro do meu cu todo cagado e dilacerado por qualquer instrumento rural. O outro sentido era o terrível zumbido de moscas que pousavam nas minhas feridas abertas e na merda se espalhou infectando os meus órgãos abdominais...

Ikai - Parte 5

            A dualidade se desfez, ao menos por um tempo, porque eu estava desligado. Quando meus sentidos se expandiram do chip para meu corpo de metal, eu olhei em volta, e não entendi. Não podia ver meu corpo nem qualquer coisa à minha volta, apenas um amplo espaço escuro. Embora eu registrasse em meu mainframe digital – no meu “campo de visão” – a temperatura e dimensão de um quarto, eu não o enxergava . Eu também podia cheirar o perfume asséptico e ionizado, bem como sentir sutis lufadas de ar... Mas era como se minha consciência deslizasse por um não-espaço. Eu estava numa imitação da nuvem. Quando este pensamento cruzou meu cérebro positrônico, a ilusão começou a se desfazer como blocos de luz organizados. A imensidão escura era uma projeção que fora capaz até de confundir meus sentidos integrados e fazer com que até meu corpo de metal parecesse ausente. Mas ele estava lá. Eu estava lá. O cômodo revelado era amplo e oval. Na parede curva...